A situação econômica da Empresa tem preocupado os associados que não compreendem como uma organização lucrativa e independente passou de repente a ostentar prejuízos bilionários.
Nesta entrevista exclusiva com o
conselheiro eleito pelos trabalhadores para o Conselho de Administração dos
Correios, Marcos César Alves Silva,
a ADCAP buscou a resposta, que é trazida na matéria a seguir.
Direção Nacional da ADCAP.
“As verdadeiras causas do prejuízo
dos
Correios.”
Por Rosiane Amaral, para a ADCAP
“Não é má
gestão, declínio na quantidade de cartas, redução da rentabilidade e nem os
custos com o plano de saúde dos empregados a real causa do prejuízo que, desde
2013, os Correios vêm registrando.” A afirmação é do representante dos empregados
no Conselho de Administração dos Correios, Marcos César Alves Silva. Para ele o
que, de fato, abalou a situação econômico-financeira da empresa foi a mudança
nos critérios contábeis, que determinaram o provisionamento para a cobertura
das despesas com o pós-emprego dos trabalhadores. Os novos critérios, que
seguem parâmetros internacionais e foram introduzidos no país pela norma CPC
33, passaram a ser praticados nos Correios também em 2013.
Segundo o
conselheiro, a implantação dessas mudanças contábeis em estatais, que são
grandes empregadoras, não recebeu a atenção necessária por parte do Governo
Federal. Argumenta que, no mínimo, essas organizações deveriam ter sido
preparadas de alguma forma para o impacto econômico-financeiro que sofreriam em
decorrência da modificação contábil. “No caso dos Correios, a situação foi
ainda mais grave, em função do cenário encontrado. A empresa já vinha
descapitalizada pelo congelamento de tarifas, ocorrido entre 2012 e 2014, e
também pelo recolhimento excessivo de dividendos, muito além do limite mínimo
de 25% estabelecido em lei. Entre 2007 e 2013, foram recolhidos como
dividendos, além do mínimo, cerca de R$ 6 bilhões em valores corrigidos”,
justifica Marcos César.
Relatório – O detalhamento dos prejuízos
está no relatório 201700921, no qual a Controladoria Geral da União (CGU)
avalia a situação dos Correios de 2011 a 2016 e aponta a gravidade da situação
econômico-financeira da empresa.
Visão aprofundada – A partir da
divulgação do relatório, a situação dos Correios passou a pautar entrevistas e
noticiários, gerando uma série de dúvidas e questionamentos. Embora o prejuízo
seja real, as justificativas apresentadas, até agora, não contemplaram uma análise
mais aprofundada, sendo muitas vezes baseadas em informações equivocadas e sem
o devido conhecimento dos fatos geradores.
Preocupada
em mostrar contrapontos à versão que vem sendo colocada para a população e para
o mercado, a Associação dos Empregados dos Correios (ADCAP) foi ouvir o
representante dos empregados no Conselho de Administração. Pela complexidade da
situação e por considerar as novas regras contábeis “uma caixa preta”, Marcos
César tem se dedicado a estudá-las com profundidade. Constantemente tem levado
o assunto para debate nas reuniões do Conselho de Administração e também
mantido contatos com autoridades. O objetivo é buscar apoio e assim tentar
encontrar formas para amenizar os impactos que a empresa vem sofrendo.
As
respostas, a seguir, constituem importantes subsídios para que se compreenda as
reais causas da situação econômico-financeira dos Correios, que são, na visão
do conselheiro, bem distintas das que vêm sendo apregoadas por autoridades.
1) Os Correios realmente estão apresentando prejuízo?
Sim, mas
este resultado se deve, em grande parte, à mudança contábil introduzida a
partir da norma CPC 33, que trata do pré-pagamento dos benefícios do
pós-emprego. Não fosse a contabilização que decorre exclusivamente dessa norma,
a empresa seria lucrativa. Isso pode ser comprovado com a leitura atenta do
relatório nº 201700921 – “Avaliação da Situação Econômico-Financeira-Correios –
Exercícios de 2011 a 2016”, produzido pela Controladoria Geral da União (CGU).
2) O que dizer da afirmação de que ninguém mais manda
carta?
Embora o
segmento “mensagens” tenha apresentado uma queda de receita de 4% em 2017,
o volume de mensagens nos Correios, incluindo as cartas, continua bastante
expressivo. São indevidas as declarações que fazem alguns desavisados ao comentar
que “as cartas estão acabando por que ninguém mais as escreve”. Isso só
demonstra o completo desconhecimento do assunto, pois há décadas as cartas
pessoais representam apenas traço nas estatísticas postais brasileiras. Mesmo
assim, por muitos anos, a postagem de cartas cresceu, alavancada por objetos
comerciais – boletos e contas – esses, sim, representam, há muito, a quase
totalidade dos objetos enviados.
3) Os serviços tradicionais dos Correios, especialmente a
carta, não enfrentam nesse momento uma situação de obsolescência, com a
proliferação da comunicação eletrônica?
Em 1997,
com a popularização da internet, foi anunciado o fim da comunicação em papel.
Naquela ocasião, os Correios lançaram, de forma pioneira no mundo, o telegrama
e a carta via internet, demonstrando que não há que se ter receio da inovação,
mas sim aproveitá-la em benefício dos clientes. A comunicação em papel tem
ainda um espaço importante na vida das pessoas, pois em muitas situações é mais
conveniente ou eficaz que a comunicação eletrônica.
4) Sobre o desequilíbrio econômico-financeiro, o relatório
da CGU explica suas causas?
A CGU
menciona as questões da defasagem tarifária e das mudanças dos critérios
contábeis. Talvez fosse importante que enfatizasse mais a importância das
mudanças contábeis, em função de seu significativo impacto para o quadro
econômico-financeiro dos Correios. Quem lê o relatório rapidamente, talvez não
perceba isso com facilidade.
5) Se a empresa sempre deu lucro, por que a partir de 2013
começou a acumular prejuízos?
Diferentemente
do que vem sendo afirmado, o desequilíbrio financeiro dos Correios não decorre
da redução de seus negócios, nem dos efeitos do plano de saúde dos
trabalhadores, vilanizado pela atual direção. Na verdade, o fator que influenciou,
de forma decisiva, para a inversão de resultados foi mesmo a mudança na
contabilização das obrigações com o chamado benefício pós-emprego. Além disso,
entre 2007 e 2013, o Governo Federal levou dos Correios, em valores
atualizados, cerca de R$ 6 bilhões de reais de dividendos, além do mínimo
estabelecido em lei, que é 25% do lucro líquido. Isso descapitalizou a empresa,
que chegara a ter, aproximadamente, esse mesmo valor em caixa.
Em
resumo: o acionista, por meio de recolhimentos excessivos, limpou o caixa,
deixando a empresa sem recursos para seus investimentos e muito menos para a
constituição de um fundo para enfrentar os novos critérios de provisionamento
das despesas pós-emprego. O resultado disso vem espelhado nos balanços dos
Correios desde 2013, conforme retrata o relatório produzido pela CGU.
6) O que é pós-emprego?
São as
despesas futuras que a empresa terá com seus empregados, a partir do momento em
que deixarem a organização. Trata-se principalmente das despesas com planos de
previdência privada e com assistência médica, hospitalar e odontológica.
7) Como os benefícios pós-emprego eram tratados nos
Correios, antes da adoção dos novos critérios contábeis de provisionamento?
Antes a sistemática utilizada era
de pagamento à medida em que a despesa se apresentava (pay-as-you-go). Com a
mudança nos critérios contábeis, passou a ser exigido o pré-pagamento, ou seja,
o provisionamento (pre-funding).
8) Por que essa mudança contábil gerou um impacto tão
grande nas finanças da empresa?
A partir
de 2013, com a implantação da norma CPC 33, que exige a contabilização prévia
de despesas com pós-emprego (saúde, previdência etc), os Correios foram
obrigados a provisionar um volume elevado de recursos, até novembro/17, em
torno de R$ 9 bilhões, para arcar no futuro com tais despesas. Esse
provisionamento compromete praticamente todo o patrimônio da empresa. E, além
do provisionamento, os Correios também precisam contabilizar anualmente o
serviço (juros) referentes a esse valor, que representa algo em torno de R$ 1
bilhão. Esse montante equivale ao maior lucro já registrado pela empresa.
9) Como era a situação econômico-financeira da empresa
antes da adoção das novas regras contábeis?
Em 2012,
último ano antes da adoção da contabilização do pós-emprego, a empresa teve
receitas de R$ 16,5 bilhões e um lucro líquido de 1,04 bilhão. A partir de
2013, com as novas regras, a situação mudou radicalmente, produzindo resultados
catastróficos no patrimônio da empresa e em seus resultados anuais.
10) Se esses novos critérios contábeis foram tão danosos, a
empresa poderia optar por não os adotar?
O
reconhecimento do benefício pós-emprego nos balanços das empresas é uma medida
legal no Brasil e está alinhado a práticas internacionais, ainda que nos EUA
não constitua uma obrigação das empresas, que podem fazer ou não esse tipo de
provisionamento. Segundo soubemos, apenas 30% das empresas listadas na Fortune
1000 (mil maiores empresas norte-americanas) fazem esse tipo de
provisionamento.
11) A empresa poderia ter sido preparada para enfrentar
essas mudanças na forma do provisionamento?
Com
certeza, sim. Primeiramente, sabendo da mudança contábil a ser implantada, o
Governo Federal poderia ter evitado o recolhimento excessivo de dividendos da
empresa. Poderia também ter mantido nossas tarifas atualizadas. E, por último
poderia ter orientado a formação de um fundo, para garantir o pós-emprego. Em
vez disso, o que se viu foi a ausência de medidas preliminares do Governo
Federal e das próprias direções da empresa para lidar com o impacto contábil
dessa magnitude. As conseqüências aparecem claramente no balanço. Houve falha
de órgãos como a Procuradoria Geral da Fazenda Nacional / Ministério da Fazenda
(PGFN/MF) e a Secretaria de Coordenação e Governança das Empresas Estatais /
Ministério do Planejamento, Desenvolvimento e Gestão (SEST), que deveriam
cuidar da sustentabilidade das estatais, antevendo riscos e preparando
contramedidas.
12) Considerando que não foram tomadas medidas preventivas,
ainda é possível buscar soluções para reverter a situação?
Para que
os Correios e outras grandes empregadoras estatais possam lidar com essa nova
realidade contábil, imposta sem a devida preparação, serão necessárias medidas
estruturantes. No entanto, enquanto elas não existem, medidas paliativas podem,
pelo menos, assegurar os compromissos assumidos com os benefícios do
pós-emprego. As autoridades do Governo Federal deveriam se concentrar na
avaliação de medidas como, por exemplo, a montagem de um fundo com títulos
públicos para capitalizar os Correios. O que não se pode aceitar é que empresas
estatais como os Correios sejam abandonadas à própria sorte. Ameaças de
privatização ou, simplesmente, atribuir aos direitos conquistados pelos
trabalhadores a culpa pelo quadro deficitário é, no mínimo, uma atitude
irresponsável.
13) Se os reais motivos do desequilíbrio financeiro dos
Correios são as mudanças contábeis e a descapitalização da empresa, por que
autoridades e, mesmo, dirigentes continuam atribuindo a responsabilidade a uma
série de outros fatores?
Realmente,
não é raro ouvir análises superficiais que buscam atribuir a responsabilidade
pelo atual quadro econômico-financeiro às despesas com o plano de saúde ou à
ineficácia de gestões anteriores. Ao afirmarem isso, não levam em conta que o
plano de saúde dos Correios existe há décadas e que em outros anos as métricas
utilizadas apontavam para uma organização saudável, com resultados equilibrados
e consistentes, conforme consta nos balanços e relatórios de gestão e de
administração. Considero imprescindível que isso seja bem esclarecido, porque a
busca de soluções passa sempre por entender as reais causas de um problema.
14) O que está acontecendo com os Correios no Brasil já
ocorreu com outros correios?
Em 2006, o correio americano (USPS) teve que adotar uma mudança contábil similar a essa. O contexto era um pouco diferente do nosso, ou seja, não se tratava da implantação de uma nova norma contábil, pois lá esse pré-pagamento não é obrigatório, mas sim de uma determinação do Congresso. Decisão tomada para manter com o Tesouro Americano um excedente de recursos recolhidos pelo correio para o fundo previdenciário. Com o tempo, a medida se mostrou desastrosa para o USPS e tem motivado uma série de discussões sobre sua adequação. O USPS não tem conseguido pagar as prestações no prazo estabelecido (dez anos). Para tentar resolver a situação, cogitam eliminar a obrigatoriedade do pré-pagamento ou o financiamento do pagamento em 40 anos, em vez dos atuais 10, mas o tema não está ainda pacificado por lá.
O fato concreto é que, após essa medida, o USPS, que nunca dependera do Tesouro
Americano, não conseguiu mais se reequilibrar financeiramente.
15) Como representante dos empregados no Conselho de
Administração dos Correios, qual tem sido a sua posição em relação a este
tema?
Para que
se encontre o caminho da sustentabilidade, é fundamental adotar medidas de
correção dos efeitos da aplicação das novas práticas contábeis nos Correios.
Com o intuito de auxiliar na busca de medidas efetivas, tenho me dedicado a
estudar o assunto e realizado reuniões com áreas técnicas da empresa. Também
estou buscando aprender com a experiência de outras organizações, que estão
passando pela mesma situação, como é o caso do correio americano.
16) Que providências o conselheiro já tomou para tentar
minimizar a situação?
Em
novembro apresentamos, em reunião do Conselho de Administração, Comunicação
abordando o tema pós-emprego e seu impacto nos resultados da empresa. A partir
da apresentação da Comunicação, adotamos as seguintes medidas relacionadas ao
aprofundamento da discussão do tema:
– envio de ofício aos ministros – MCTIC, Fazenda, Planejamento e
Casa Civil, apresentando a alternativa adicional de se avaliar o ajuste de
normas e leis, para reduzir o impacto dessas mudanças contábeis nas empresas
estatais; essa alternativa se somava à proposta originalmente apresentada de
aporte de capital;
– recebimento de resposta da Coordenação-Geral de Participações Acionárias do
Tesouro Nacional, informando a posição da Coordenação, contrária à mudança das
normas e leis, e acrescentando que a Coordenação estava ciente das dificuldades
econômico-financeiras enfrentadas pela empresa e que vinha adotando, no âmbito
de sua atuação, todas as medidas cabíveis para solução do problema;
– envio de ofício à Coordenação-Geral de Participações Acionárias do Tesouro
Nacional esclarecendo alguns pontos do posicionamento inicialmente apresentado
e reforçando a expectativa de que encontrem meios de corrigir os efeitos causados
na empresa pela aplicação da CPC 33, logo após um processo de forte
descapitalização induzido pelo controlador (Governo Federal).
Além
disso, realizamos diversas reuniões com áreas técnicas da empresa, buscando
aprofundar nosso conhecimento sobre o tema. Temos convicção de que adotar
medidas para corrigir os efeitos da aplicação das novas práticas contábeis aos
Correios é fundamental para que se encontre o caminho da sustentabilidade.
17) Quais os maiores desafios que os Correios precisam
vencer na atualidade para se manterem sustentáveis?
Em primeiro lugar, resolver a contabilização do pós-emprego, de forma que a empresa tenha uma visão mais adequada de seus reais resultados. Em paralelo, aprimorar a qualidade operacional, considerando, inclusive, a absorção de crescentes volumes de encomendas; desenvolver a empresa, aproveitando as oportunidades abertas pela Lei nº 12.490/11, de modernização dos Correios, e implantar, de maneira integral, as disposições da Lei nº 13.303/2016 (lei das estatais), profissionalizando a gestão do topo à base.
Marcos César Alves Silva (foto)
é Administrador Postal Senior, membro eleito pelos trabalhadores para o
Conselho de Administração dos Correios e associado da ADCAP.
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